Falei recentemente sobre o estudo de viabilidade técnica, econômica e jurídica para o complexo do Maracanã, elaborado pela IMX, do Sr. Eike Batista, e mostrei que, na realidade, não é um estudo, mas quase uma peça publicitária de interesses particulares da empresa pela privatização do complexo – não por acaso, a mesma empresa contratada para fazer o estudo de viabilidade venceu a licitação.
O tal estudo apresentado tem de tudo, menos um estudo. Diz ele que o Maracanã dava prejuízo, quando sabemos que não é verdade – que ele precisava de reformas é evidente, mas o estádio deu lucro a sua vida toda. Diz ainda que o Célio de Barros e o Julio Delamare precisavam ser demolidos porque estavam ociosos – o que também não é verdade; é só visitar o Centro Esportivo Célio de Barros e o Parque Aquático Júlio Delamare para ver que eles têm grande valia, grande utilidade, mas o interesse privado do Sr. Eike Batista é construir ali um estacionamento. Ou seja, sua empresa recebe dinheiro público para fazer o estudo e ainda apresenta um resultado que não é verdadeiro, porque não há pesquisa, não há estatística, não há comprovação, não há nada, e ainda pagamos por isso.
E mais: diz o estudo que os clubes vão se beneficiar porque vai haver uma mudança no perfil do torcedor – isso está escrito –, e o Maracanã será mais lucrativo. Ou seja, os ingressos vão ficar mais caros, o pobre não vai poder frequentar o estádio e, segundo o Sr. Eike Batista, isso vai ser bom para os clubes porque vão lucrar mais. Em outras palavras, a privatização do estádio diz claramente que a população pobre não poderá mais frequentá-lo – isso está escrito no documento pelo qual pagamos à IMX, empresa que vai administrar o Maracanã. É inaceitável!
Falei sobre isso na semana passada porque achei que esse seria o maior dos absurdos, mas eis que o canal de televisão ESPN Brasil fez um trabalho extraordinário pelos jornalistas Gabriela Moreira e Lúcio de Castro. Como é bom ter um meio de comunicação independente! Como faz diferença ter um canal que faça um debate honesto, que possa trazer a pauta verdadeira, que possa ouvir o lado silenciado por outros meios, que possa fazer o questionamento do interesse público. Como é importante contar com um veículo de comunicação que tenha independência mínima a fim de garantir o interesse público, é disso que estamos falando.
Nessa matéria recente do Maracanã feito pelo Lúcio de Castro e Gabriela Moreira, tem o Dossiê Maracanã que sugiro aos companheiros do Tribunal de Justiça que começam a chegar aqui nas galerias, sejam bem-vindos, entrem no site da ESPN para que possam assistir. E quem não viu, entrem no site Deputado, e assistam “Dossiê Maracanã”.
Há um elemento fundamental para que tenhamos uma ideia como o Governo do Estado opera, como o Governo do Estado funciona. Deputados que são da base do Governo, assistam.
Só para os senhores terem uma ideia, o Maracanã era um bem tombado. Então, para ele sofrer as alterações que sofreu, ele teria de ser destombado, o que teria de ser feito pela Presidência da República, que obviamente não o fez por não querer trazer para ela esse desgaste.
Quem autorizou a destruição das marquises, das arquibancadas, das cadeiras? Foi o superintendente do Iphan, Instituto de Patrimônio Nacional. O superintendente, naquele momento, era o Sr. Carlos Fernando de Souza Leão Andrade. Ele não é mais, foi substituído, mas à época do início da obra foi esse senhor quem autorizou o Governo do Estado, Deputado Geraldo Pudim, começar a fazer a obra do Maracanã. E assim que ele autorizou, começaram a quebrar o Maracanã inteiro, colocaram-no abaixo, e construíram um novo e moderno Maracanã.
Pois bem, o próprio conselho do Iphan está questionando o seu superintendente que já foi afastado. Mas sabem o que a ESPN descobriu e que está aqui neste dossiê? Que o superintendente do Iphan na verdade ele era funcionário do Governo Sérgio Cabral. O Sr. Carlos Fernando de Souza Leão Andrade era funcionário da Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos, a mesma Secretaria que fez a obra no Maracanã! Ele estava cedido ao Iphan. Fingindo independência, ele autorizou que a Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos, órgão para quem ele trabalhava, fizesse a obra do Maracanã!
E é assim que eles agem. Porque depois de destruído, o que falar? “Não, olha, bota de volta porque isso você não poderia fazer”. Não vai poder fazer isso. Então, eles contam com a impunidade, com o Poder Judiciário, que é aliado do Governo Estadual. E o que menos importa nesse momento é o cumprimento da lei.
É lamentável, é gravíssimo tal fato. Ele foi afastado e adivinha ele está hoje? Adivinha onde o Carlos Fernando de Souza Leão Andrade está hoje? No Governo do Estado. Ele foi para o Iphan, autorizou a obra no Maracanã, foi afastado pelo escândalo e voltou para o Governo do Estado, e tudo bem, Deputado! Tudo bem. Não tem problema nenhum. O problema é nosso, porque nós ficamos sem o Maracanã, um dos maiores símbolos da nossa cidade. Ele precisava de reforma? Precisava. Agora, o Maracanã não precisava passar pelo que passou ao preço que foi, para depois ser entregue à iniciativa privada.
E o mais importante, quem autorizou através do Iphan era alguém funcionário do Governo interessado nessa obra. Ou seja, é um jogo de compadres, é um jogo de aliados, um jogo de sócios. É inacreditável! Eles perderam completamente o mínimo de vergonha na cara. Não estão mais preocupados com isso. Perderam qualquer pingo de vergonha na cara.
O sujeito que liberou a obra do Maracanã é funcionário da Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos. Quando entrevistado, disse: “Não há contradição; não há problemas. O meu parecer lá foi técnico”. Ora bolas, é pior que nos chamar de palhaços.
Então foi independente? Tenho aqui a ata, Sr. Presidente, da reunião do conselho posterior. A opinião dos conselheiros do Iphan não é a mesma do superintendente, alguns inclusive esculhambam com ele e dizem se sentir envergonhados. Como é que esse parecer foi técnico? Não, não foi técnico, Sr. Carlos Fernando, o seu parecer foi político, o seu parecer foi recheado de interesses econômicos, privados, contra o interesse público, sem os trâmites devidos do interesse público, é isso que está em jogo, é muito grave. Essa novela do Maracanã ainda vai render muito porque quando a população entender que perdeu um dos seus principais espaços de alegria vai ter repercussão nas ruas. A população ainda está dormente em relação a isso mas vai chegar um momento que vai entender. O que está em jogo é o mais absurdo interesse privado sobre o interesse público. Esse episódio do Maracanã que está longe de encerrar, a cada dia se descobre uma coisa nova, é vil, é lamentável. Nesse momento, honestamente, todo o Iphan está sob suspeita porque como é que entra para ser superintendente do Iphan alguém da Secretaria de Obras, cedido, que autoriza os interesses da Secretaria de Obras, do Governo estadual, do Sr. Eike Batista e companhia e da Odebrecht para fazer a obra do Maracanã e depois ele sai?
Sr. Presidente, o meu tempo esgotou, esses questionamentos certamente não esgotam o debate do Maracanã, eles apenas iniciam. Parabéns a ESPN, parabéns ao amigo Lúcio de Castro e a Gabriela Moreira pela independência e pela corajosa matéria de interesse público, coisa que faltou ao Iphan, coisa que faltou ao Governo estadual.
Obrigado.
- http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/taqalerj.nsf/3620b663fe7fd44f832565370043e8be/e6eb12acdbc70b4883257b720071e669?OpenDocument
“É uma mudança fantástica. Eu já conheci vários estádios pelo mundo e é impressionante no que se transformou o Maracanã. É mudança de estágio civilizatório mesmo. Pela primeira vez eu acho que o torcedor vai ser tratado com respeito”, disse o prefeito, que comandou o Maracanã pela Suderj por um ano e meio e diz que, antigamente, ir ao Maracanã “era uma aventura”:
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