quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Maraca não é mais nosso


‘Calma que o Brasil é nosso!”.
A expressão, mais antiga que o Maracanã ou a euforia do Petróleo, não pode ser mais aplicada ao Estádio Mário Filho.
Ok, ele continua a ser nosso do ponto de vista estatutário.
Mas deixou de sê-lo no seu caráter, seu modo de ser e receber o torcedor.
Desde as estapafúrdias reformas e, mais recentemente, sua demolição (sim, demolição), o Maracanã deixou de ser do Rio, do Brasil, e passou a ser da Fifa, dos patrocinadores, dos padrões exigidos por uma competição internacional.
Nunca mais o torcedor sentirá o cheiro do cimento quente das arquibancadas.
Jamais percorrerá, aos saltos, correndo em todos os sentidos, ao sabor da alegria ou do desespero, o arco de suas escadarias monumentais.
Não se verá novamente o Vasco desfilar dando a volta completa no anel cantando “Vascão, Fogão, Torcida de Irmão”.
Agora que está tudo estabelecido, agora que o Iphan abençoou a “solução final” para o patrimônio (sua extinção), cabe ouvir, com distância, o jornalista Pedro Motta Gueiros no belo texto que segue, quando diz que teria sido melhor construir um estádio só para a Copa e fazer uma reforma efetiva, inteligente, no Maracanã, que o transformasse naquilo que ele era: o nosso palco, com maior segurança.
O conjunto da obra talvez saísse mais barato… um estádio Fifa construído do zero consome R$650 milhões (o gigante Soccer City, por exemplo).
As obras do Maracanã ultrapassarão o bilhão. Se contabilizarmos os prejuízos anteriores e a perda de identidade, terá sido o pior negócio da década. Independentemente do desejado sucesso da Copa. (Arnaldo Bloch)
Por PEDRO MOTTA GUEIROS
No slideshow de imagens chocantes que entram pelas janelas abertas do mundo, é difícil separar o real do virtual.
Entre desastres naturais e dramas humanos, o Maracanã em escombros se confunde com mais uma tragédia.
Recriar a realidade dentro do estádio é uma metáfora gasta e perigosa.
De todas as brincadeiras do mundo, o futebol talvez seja apenas a mais séria.
É nesse espaço do lúdico e da fantasia que se fortalecem a identidade e os laços de uma cultura.
Para quem guarda naquele quarteirão entre a Eurico Rabello e Radial Oeste boa parte das melhores memórias afetivas, encontrar o Maracanã como uma boca banguela à espera de um implante traz o desconforto de uma cadeira de dentista.
Na estética elitizada da indústria do entretenimento, o sorriso construído para um mês de Copa do Mundo esconde a cara – às vezes desdentada, às vezes não, mas nossa! – do torcedor brasileiro.
Nada disso será levado em conta daqui a três anos e três meses, quando o dirigível de um dos patrocinadores enviar ao mundo imagens aéreas do estádio lotado para a decisão.
No momento da glória e do êxtase, serão exaltados os acertos da empreitada, a beleza da nova arena e, quiçá, a presença da seleção brasileira em mais uma final (será?).
Mas hoje, as perdas ainda se impõem aos ganhos.
Com a necessidade de refazer toda a cobertura, o orçamento bateu no teto.
Além do gasto de R$1 bilhão na reforma de um estádio que já passara por duas grandes intervenções apenas neste século, há prejuízos concretos e subjetivos a serem contabilizados.
Num momento em que o futebol do Rio tem os últimos dois campeões brasileiros e volta a exercer atração sobre grandes estrelas, a operação não se completa sem que o Rio tenha o seu grande (outrora grande) palco e sua caixa de ressonância.
Na simetria de seus anéis, o estádio funcionava como um dínamo gerador de energia limpa e de ondas sonoras, rítmicas e musicais, que ecoavam pelas suas arquibancadas junto com o sinal radiofônico de tempo e placar no Maraca.
Seja pela questão financeira ou pela transformação do espaço público, não há mais retorno possível desta atmosfera.
Para comportar camarotes, espaços vips e a nova face de megaeventos cada vez mais corporativos, as intervenções vão mexer na forma e no conteúdo simbólico e efetivo do estádio.
É como se, do dia para noite, o carioca fosse privado de ir à praia no lugar que frequenta há anos e ao voltar, três anos depois, não encontrasse mais sua turma, e a areia fosse substituída por cimento.
A transformação começou na preparação para o Mundial de Clubes de 2000, sempre para atender às imposições da Fifa.
No lugar do livre movimento das massas, que fazia o cordão de isolamento dos policiais se deslocar de acordo com a proporção entre as torcidas, chegou o momento de se estabelecer limites, divisórias e uma certa segregação, a começar pelo banimento definitivo da geral.
A partir do ocorrido na Europa, em que a presença de torcedores em pé concorreu para a tragédia de Heysel, nos anos 80, o efeito dominó derrubou não só alambrados, mas a maior parte das outras formas de se ver futebol.
No Maracanã, no entanto, a geral, sempre foi vítima e não responsável pela violência.
As maiores violências registradas no setor mais popular do estádio vinham de cima, dentro dos copos arremessados das arquibancadas.
Com espírito esportivo para se misturar aos rivais e não ver muito mais do que as canelas de seus ídolos, restava ao geraldino o faro para identificar se a bomba era de xixi ou cerveja.
O resto era festa.
Mas resistir é possível.
Julgar uma cultura pelos valores da outra é um atentado à singularidade e até à soberania de cada região.
Na Alemanha, o respeito às convenções internacionais não exclui a manutenção das tradições locais.
Para as competições sob organização da confederação europeia, o Westfallen Stadium, em Dortmund, tem 100% de sua audiência sentada em lugares marcados.
Para os jogos da liga nacional, os assentos são removidos para a torcida vibrar à sua maneira, de pé, no embalo e da cerveja e da paixão alemã pelo futebol! Rio de Janeiro?
Mas no Brasil o caminho sem volta leva a um impasse e faz pensar se vale mesmo à pena trocar uma construção de 61 anos por um mês de futebol nos padrões de assepsia impostos pelos donos da festa e seus parceiros comerciais.
Na finalíssima do campeonato de futebol americano quase a totalidade do estádio é bloqueada pelos patrocinadores que oferecem ingressos como forma de premiar seus funcinários.
Na Copa do Mundo de 2014, as agências de viagem e empresas têm prioridade semelhante. Nestes termos, não seria melhor ter feito um estádio novo de acordo com interesses particulares para preservar o bem público com suas características genuínas?
Ponto de fusão da democracia social, o Maracanã não é chamado de templo apenas por força de expressão.
A explosão do gol e da fraternidade no abraço ao torcedor desconhecido era versão esportiva de uma cerimônia religiosa.
Não se mexe no teto da Capela Sistina. Se restaura, quando necessário.
Estar no Maracanã tem, ou tinha, a dimensão do sagrado.
Das primeiras experiências pelas mãos do pai ao gosto de nostalgia do mate espumante, a vida passa num outro slideshow, este de imagens sublimes.
Hoje, o que se vê é uma boca banguela.
Junto com a queda das arquibancadas, implode também parte da alma carioca.
Que o velho gigante, para sempre adormecido, descanse em paz.
Depois de uma destruição, é uma defesa natural do homem tentar transformar o horror em alento.
Além dos escombros e das ilusões perdidas, só nos resta a esperança de que a vida e o Maracanã possam ser melhores daqui para frente.

Os mais espertos do que nós

Vejam só que as obras do “novo” sambódromo começaram e estarão já prontas para os nossos tão esperados ensaios técnicos. São mais de 18 mil lugares. Caramba! Será que é isto mesmo: 18 000 lugares, é muita coisa, ficará maior que o Maracanã?

É muita coisa e um número conhecido. Nos remete à antiga Geral do Maracanã com seus 30 mil lugares em pé reduzidos a 18 mil cadeiras após a “modernização” ocorrida em 2005 sob os auspícios da FIFA.

E por falar em Geral, fico imaginando... no futuro, como será que um dia ela será lembrada?

Símbolo de desconforto e subdesenvolvimento? Falta de consideração para com torcedores em pé assistindo a jogos ao longo de duas, três horas?

Marca de um pensamento aglutinador voltado para dar acesso às grandes massas de um país ainda em busca do desenvolvimento, com seus torcedores ainda em processo de proletarização?

Confesso que não tenho lá muito interesse em confirmar uma ou outra ou até outras hipóteses. O que me interessa é testemunhar a magia que havia ali, o significado de tanta harmonia entre desiguais (?), inimigos (?)?

Como é, afinal, que devemos chamar aquela pesada animosidade momentânea de uma partida de futebol no Maraca domingo?

Quero voltar ao momento do projeto, pouco antes da Copa de 1950. Ali já se tinha notícias de conflitos com mortes em estádios do Reino Unido como o Villa Park, em Birmingham, em 1946, e até outros anteriores como em Glascow, em 1902, ambos com dezenas de mortes e centenas de feridos.

Que terá levado os projetistas do estádio a ter a coragem de apostar na inexistência de conflitos, fazer profissão de fé de que aqui nesta parte do planeta não haveria pecado. Que flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses jamais se estranhariam, se desrespeitariam, se agrediriam naquele espaço sagrado da Geral, sem qualquer muro, sem qualquer divisão, proteção, sem qualquer cuidado maior.

Como chamar isto? Inconsequência, irresponsabilidade; será que ali eles ficavam junto à prancheta discutindo, procurando prever o que estavam criando?

Pois um pedaço enorme de minha vida ali virou escombro junto coma Geral.

Se Pelé jogou cem vezes no Maracanã eu vi noventa. Dessas noventa, oitenta vi da Geral.

O fascínio de ver o maior de todos os reis, no maior de todos os estádios do mundo, de tão perto.

Perto dele no primeiro tempo, perto dele no segundo tempo. Sempre ali, pelo lado esquerdo do ataque do Santos, ou por trás do gol saboreando cada momento de magia da arte que mais me tocava.

Quantos Fla-Flu, jogos com o Botafogo, Vasco. Olaria, Bonsucesso. Ali um menino ainda sem medo. Toda uma vida ali em baixo sem nunca... mas nunca mesmo, ter visto uma única briga, um único tapa.

Pode haver em toda a história do mundo, em toda a história da vida, um exemplo maior de respeito ao outro? De tolerância, daquilo que se pode referir como democracia naquilo que a palavra pode ter de mais bonito?

E quem era aquele povo que esteve ali até o dia em que a Geral foi riscada do mapa de nossas histórias? Quem era aquela gente que deixava uma lição a cada domingo, uma lição a tanta gente que a via com tanta desconfiança, com tanto preconceito, com tanto desdém, quantos desdentados, mestiços que eram, subempregados que eram...

Que alegria era aquela? Que tipos surgiam dali? Que demonstração absoluta de bom humor, de irreverência, de fair-play, marcas maiores que orgulham tanto o povo carioca. Marcas que fazem dele, apesar de tanto, um diferencial entre tantos outros povos do mundo, mesmo sem a-menor-pretensão-de-ser-melhor-que-ninguém.

Olha rapaziada aí desse lado... leva a mal não, mas eu vi. Vivi isto tudo intensamente. O suficiente para sentir novamente, tantos anos depois, o sabor, o gosto de sangue, da mesma facada ao ler o pungente texto do jornalista Pedro Motta Gueiros, no O Globo de 20/04/2011, sob o título “O MARACA NÃO É MAIS NOSSO”.

Sim, jornalista Pedro. Não sei quantos anos você tem. Não sei quantas vezes você esteve lá com seu pai. O quanto de emoção você terá deixado ali. Mesmo assim concordo com você. Quantas de nossas maiores e melhores memórias afetivas estavam ali até outro dia e hoje são parte de escombros em meio a entulhos... de pedras e de interesses tão pouco identificáveis.

E eu fico sempre me perguntando, em relação a tudo e também ao carnaval: O quanto de tanta transformação que nos enfiam goela abaixo, sempre tão bem embrulhadinhas, faz parte da inevitabilidade da própria vida, da urbanização das cidades, do mundo, da sociedade global, atemporal e o quanto fica escondido, justificado e embrulhado por tudo isto e serve apenas aos interesses da tão pouca gente?

O quanto disso tudo é decorrente da marcha dos tempos, da vida? E o quanto é decorrente dos interesses e manobras mais mesquinhas, mais ocultas e culturalmente inconseqüentes?

E faço a comparação com os flanelinhas. Como dói ir ao samba, ou ao estádio, e o flanelinha nos “extorquir” em 10, 20 pratas para garantia de guardar-não arranhar nossos carros? Ah! Se soubéssemos que cada um tira “o quanto” e “o quê pode”?

Se soubéssemos o quanto tiram de nós de maneira mais sutil, mais “digna”, menos “suja”, mais dolorida, roubando de nós nossas próprias vidas, nossa história, afastando de nós a possibilidade de exercermos nossa maneira de ser como povo, como gente, como sambista, como torcedor... como cidadão.

Nós que só queremos levar para casa nossos salários... o produto honesto de nosso trabalho diário, criar e educar nossos filhos, por um mundo melhor.

Nem sempre percebemos aqueles que são mais espertos que nós. Quanto tiram de nós nossas maiores riquezas, essas mesmas que não valem nada... mas nada mesmo!...para eles.

Tanto ou mais dolorido que o texto foi a introdução daquela matéria de O GLOBO, esta assinada por Arnaldo Bloch, dando conta que o Maraca deixou de ser do Rio para ser da FIFA.

Pior, deixou de ser do Brasil para ser da FIFA. Deixou de ser do povo brasileiro para ser da FIFA.

Pior ainda, sugere o Arnaldo Bloch. O Maraca não é mais teu, meu, de nossos avós e de nossos filhos. Ele não vai nunca mais espelhar o que todos nós somos e fomos um dia. Só faltou dizer, mas eu digo agora, que ali vai se instalar um MARACANÃ-KINOPLEX.

Pois no Maracanã, na geral, inventamos a “neutralidade-em-pé-lado a lado”. Onde aqueles projetistas foram buscar a sabedoria de apostar que a maior parede, o maior muro contra a violência seria a própria ausência de muros e paredes?

E agora seus verdadeiros donos, assim identificados por Bloch, a FIFA e seus patrocinadores, seus padrões, seus parceiros comerciais, exigem, impõem, novos, seus e absolutos padrões de qualidade.

Em nome do conforto absoluto de algumas dezenas de milhares de torcedores que irão aos campos de jogo, a cada partida, em cada estado-sede, a FIFA comanda, ordena obras e reformas monumentais, impõe padrões a inúmeros estádios pelos países-sede, nem sempre, ou quase nunca, economicamente preparadas.

O que dizer quando viramos o outro lado da moeda e constamos que, ao mesmo tempo, a mesma FIFA tão bem sabe que este público, presente aos estádios, é absolutamente irrelevante diante de um platéia estimada em bilhões de pessoas assistindo confortavelmente de suas próprias casas nos quatro cantos do planeta.

Para trazer para nossa linguagem, imagino a FIFA chegando em sua casa, entrando pelo quintal frondoso e dizendo que vai ter que derrubar aquele cajueiro de cem anos que teu avô se embalava na rede com o teu pai e depois contigo. E que ia derrubar aquela churrasqueira ali no canto, e os balanços dos teus filhos. Que ia cimentar todo o chão gramado. E que ia usar o teu quintal por um único mês e depois ira embora deixando tudo como agora.

OÉ o legado que te cabe, mermão!

Li o texto e estive lá. Parece mesmo uma boca banguela a espera de um implante. Implante de eu sorriso falso, para apenas um mês de Copa do Mundo.

E a gente aqui reclamando dos flanelinhas...

Como pudemos não invadir ou não ter estado ao lado do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). Sim o IPHAN. Nada é tanto ou mais patrimônio histórico de um povo do que o palco de sua maior e mais inesquecível tragédia.

E se fosse o Cristo, o Corcovado? Ficaríamos tão conformados, tão passivos? Nos contentaríamos com tanta cascata bem vendida? Legado cultural, esportivo, aeroportuário.

O legado – ou será largado? – do Pan está aí para mostrar como e quanto os “mais espertos que nós” podem fazer o que querem de nossa boa fé. Parece uma fórmula perfeita: obras caríssimas, construídas em tempo exíguo, para eventos curtíssimos, sob o cutelo do calendário.

Tudo tão irreversível, tão incontestável...

E um legado que não vem...

Espremido entre a barafunda de questionamentos já me vejo bombardeado por e-mails que até já sei de onde virão: será que dá para ser contra a realização da Copa? Será que temos que “engolir” a Copa do jeito que eles querem? Tem mesmo que ser tudo assim, tudo posto na mesa de forma tão arrogantemente indiscutível, pronto, acabado, incontestável?

Saudosismo? Saudades da geral, complexo de vira-lata? Muito, muitíssimo mais do que isto.

Como imaginar toda aquela obra feita para o Pan, com novas rampas, novos camarotes; como imaginar todas as cadeiras antes “implantadas” sobre a geral, tudo tão caro, tudo tão recente...tudo abaixo...re-orçado, re-faturado...re-recebido, construído para um único mês.

Será que o nosso templo maior, nosso estádio, estará sendo subtraído de um tipo de torcedor para ser entregue a outro? Será que estamos criando torcedores diferentes como aqueles dos dias de carnaval e aqueles outros dos dias dos ensaios técnicos?

Não consigo deixar de pensar: quem são esses “príncipes”, tão poucos, com tanto poder? Será que é isso a democracia? “Olha, tem que ser assim e pronto!”.

Em nome de quê, de quem? Quem os colocou em posição tão democraticamente injustificada a ponto de, em nome de interesses tão discutíveis, mexerem com valores tão fortes, tão presentes, tão caros a toda uma comunidade?

QUEM SÃO ELES? QUEM OS COLOCOU LÁ? DE ONDE VEIO TANTO,TANTO, MAS TANTO PODER? QUAL O NOSSO PAPEL NISSO TUDO?

Ou será que estou fora da realidade e é isto que estamos querendo? Só o tempo dirá?

Mesmo que vençamos, mesmo que vinguemos o velho Maracã de 1950, tais atitudes encontrarão justificativas? Ninguém quer a derrota, nem voltar as costas para a Copa, a resistência é de outra natureza.

Não pensem que vejo nenhuma vantagem efetiva em ser o maior do mundo, também a questão não é esta. Por outro lado, como pode um estádio onde já coube 200 mil pessoas ser transformado em uma arena para 76 500 torcedores, a partir de uma decisão de tão pouca gente.

Será que um dia obedeceremos aos lugares marcados? Ou melhor: quantos de nós procuraremos nossos lugares marcados? Quantos de nós pediremos a alguém para levantar de nossos lugares marcados? Um nível de exigência que nunca tivemos e que perdurará por 30 dias.

A esse respeito, que tal darmos um pulinho na Kinopléxica Alemanha e vermos como estão as coisas por lá, dentro do padrão FIFA de qualidade.

Segundo Motta Gueiros, no Westfallen Stadiun, em Dortmund, nas competições continentais todos os lugares são ocupados segundo a numeração dos ingressos vendidos. Já para o campeonato nacional aqueles assentos numerados são removidos e o estádio vira um caldeirão semelhante ao nosso Maraca dos velhos domingos ensolarados.

O quanto perderemos com o Maraca-Kinoplex? O quanto ganharemos? O estádio certamente será belíssimo, confortabilíssimo, para mim, para você e para quem puder pagar. Será que teremos os preços do Sambódromo?

Será que nosso papel é o de ficarmos como meninos, com água na boca, a espera do pirulito representado pelo cumprimento do prometido legado urbanístico, de transportes, metroviário, aeroportuário? Será que esse tal legado é como o dos estádios da eurocopa portuguesa, a espera de demolição por absoluta impossibilidade de aproveitamento?

Será que esse tal legado é como os patrocínios de nossas escolas de samba? Quanta aposta, quanta cascata, quanta decepção...

O fim da geral, segundo Gueiros, foi o primeiro banimento de nossa singularidade e da soberania de nossa gente. E prossegue, radicaliza: “Não se mexe na Capela Sistina. Se restaura quando necessário. Estar no Maracanã tem, ou tinha, a dimensão do sagrado”.

Isto mesmo, caro jornalista, o Maracanã era sagrado para nós. Se algo tivesse que ser mexido, que fosse mexido: que venha a Copa. Mas com todo o cuidado, respeito e a consideração absolutamente ausente nestas decisões que antecedem a Copa do Mundo.

Quantas almas estarão sendo implodidas ali? Jazem naqueles escombros. Muitas sim, muitas não. A minha está lá.

A minha, a de meus pais e de meus filhos. Um pedaço da alma carioca, um pedaço da alma brasileira. Será que quem fez tais implosões tinha, ou tem, legitimidade para tanto? Será que é um Blatter, um Teixeira que estão mexendo tanto assim conosco?

Ainda bem que vamos ganhar uma Geral, ou seja, mais 18 mil lugares para a festa do novo sambódromo. Será que com o samba poderemos comemorar, ou também encontraremos por perto “gente mais esperta do que nós”?

Semana que vem vamos ver isto?



e-mail para contatos mais longos: lcciata2@hotmail.com

Sugestão para leitura: Texto: O MARACA NÃO É MAIS NOSSO, assinado por Pedro Motta Gueiros, com introdução de Arnaldo Bloch, publicado em O GLOBO da edição de 20/04/2011, na LOGO: a página móvel. Também republicado no BLOG do Juca Kfouri.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Apresentação no Seminário Amilcare Mattei

"Antes de qualquer coisa eu parto do seguinte princípio, é uma fortuna absurda que foi investida no Maracanã, mais de um bilhão pra entregar de mão beijada pra iniciativa privada. Dizer que ficou bonito, lindo, sensacional, ficou. Também gasta um bilhão se ficasse horroroso daí manda prender de vez todo mundo. Só que será que seria necessário fazer essa reforma toda? O Maracanã já não tinha condições depois de várias reformas, incluindo quando acabaram com a geral?
 Não somos contra o estádio ficar mais moderno, mais bonito, ser mais acessível, mais acentos, banheiros melhores. Tudo isso podia ter como já havia tendo. Eu sou contra você "reformar um estádio" e gastar 100 milhões nele pra coloca-lo mais em ordem. Não podiam desfigurar o Maracanã, seria a mesma coisa do cara chegar no Coliseu em Roma, e achar que ele está muito deteriorado, então vamos começar a azulejar, botar uns bebedouros mais modernos, e aí teria que chamar "Arena Coliseu" . É um desrespeito a lei, é o dinheiro a rodo jogado fora! Que ficou bonito não há dúvida.... Acho um desrespeito quando fazem matéria do Maracanã, e colocam criança. É claro que uma criança que vai ao Maracanã pela primeira vez vai achar tudo belíssimo, ela não carrega essa história nossa que não pode ser ignorada desse jeito. Não é que somos contra a modernidade, melhorar a coisa, mas destruir." - José Trajano.
 Eu não conheço obra de demolição em edifício tombado, nunca vi, só conheço obra de restauração e conservação aqui e no mundo inteiro. Destruir obra tombada é crime, e todos aqueles que participam disso são responsáveis criminalmente

Dossiê mostra mais abusos em nome da Copa

Destroços de demolição no Morro da Providência
Destroços de demolição no Morro da ProvidênciaLeo Lima

Documento feito pelo Comitê Popular do Rio de Janeiro mostra que os megaeventos continuam atropelando os direitos dos brasileiros
O Rio de Janeiro é uma das cidades onde as obras para a Copa mais estão removendo pessoas de suas casas em todo o país. A estimativa é que o governo gastará cerca de um bilhão de reais com desapropriações até 2014 só para implantar os chamados BRT’s (Bus Rapid Transit) – transporte previsto no projeto de mobilidade urbana para os megaeventos.
O Rio também é a única cidade entre as escolhidas para sediar os jogos que já tem uma lei desde 2009 que proíbe camelôs em um raio de 2 quilômetros dos estádios.
A capital é pauta de um dossiê exclusivo feito pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro e lançado nesta quinta-feira (19) em um debate com a presença de Raquel Rolnik no Rio, de forma simultânea com a Pública. O documento reúne denúncias de violações de direitos humanos nos preparativos para a Copa e ainda para as Olimpíadas de 2016.
O dossiê Megaeventos e violações dos direitos humanos no Rio de Janeiro, que você pode ler na íntegra aqui, foi produzido coletivamente por entidades e movimentos sociais que compõem o Comitê Popular local e traz dados sobre remoções, gastos públicos, análises sobre a falta de informação e participação dos mais afetados nos projetos de mobilidade e urbanização.
Faz ainda denúncias graves sobre a transferência de terras públicas para o setor privado através de parcerias  público-privadas e sobre condições precárias de trabalho nas obras da Copa como a reforma do Maracanã, que já enfrentou duas paralisações.
Moradia
O documento aponta que comunidades carentes têm sido expulsas de áreas valorizadas pela especulação imobiliária ou por serem pontos turísticos: “a maioria das remoções está localizada em áreas de extrema valorização imobiliária, como Barra da Tijuca, Recreio, Jacarepaguá e Vargem Grande”. E explica que a maioria dos conjuntos habitacionais produzidos pelo programa Minha Casa Minha Vida – uma das alternativas  do governo para as famílias removidas de suas casas – não está nas áreas beneficiadas com investimentos para a Copa e as Olimpíadas, e sim nas áreas periféricas da cidade, onde há baixa cobertura dos serviços públicos e infraestrutura urbana.
“Em alguns casos, a ausência ou precarização dos serviços públicos será provocada pelo recebimento de um contingente enorme de pessoas sem a correspondente ampliação dos serviços”.
Como o Copa Pública mostrou aqui e aqui, algumas formas de desapropriação têm sido arbitrárias. Segundo o dossiê, os moradores não são citados nos processos de expulsão por não constarem no Registro Geral de Imóveis, mesmo que tenham mais de 5 anos de ocupação sem contestação da posse – o que daria direito ao usucapião ou concessão de uso para fins de moradia.
O dossiê aponta que essas ações permitem “a demolição das casas sem escutar os moradores afetados” e violam “o princípio da precaução nas ações de despejo, reintegrações de posse e desapropriações que envolvam comunidades pobres e grupos vulneráveis”.
O documento fala ainda em remoções à noite, ameaças e até violência policial  como procedimentos adotados pelas sub-prefeituras e a derrubada de casas sem avaliação de impacto para as demais.
Um exemplo dado no texto é a remoção que aconteceu  no bairro Campinho, na zona norte do Rio, onde famílias tiveram suas casas derrubadas antes de  receber indenização. Em outros casos, as denúncias são de indenizações baixas tanto para moradores como para comerciantes: “Relatos de comerciantes  da Restinga, localizada no Recreio dos Bandeirantes, afirmam que a Prefeitura Municipal estava oferecendo R$ 14.400,00 e em Campinho, R$ 20.000,00. No caso da Comunidade do Metrô Mangueira, a situação é ainda pior, pois os moradores denunciam que os comerciantes da localidade não estão sendo indenizados” diz o documento.
Mobilidade
O Rio deve receber três grandes eventos nos próximos anos: A Conferência Rio+20, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Um conjunto de intervenções nos transportes está previsto, com o nome de “Revolução nos Transportes16”. Inclui a implantação dos Bus Rapid Transit (trens de alta velocidade) e o alongamento da Linha 1 do metrô. Segundo o dossiê, porém, estas obras não irão atender à demanda que já existe porque vão se concentrar  nos locais dos megaeventos:
“Primeiro, há uma forte concentração no município do Rio de Janeiro, lembrando que a região metropolitana tem 20 municípios. E, em segundo lugar, há uma desigualdade na distribuição desses investimentos no interior do município do Rio de Janeiro, com uma concentração maciça na Zona Sul e na Barra da Tijuca”, explica o documento.
Trabalho
O dossiê coloca as pressões exercidas pela FIFA e pelo COI como as principais responsáveis pela precarização do trabalho nas obras da Copa e pelas violações dos direitos dos trabalhadores que se tem visto por todo o país - Relembre o caso da Arena Amazônia
No caso específico da reforma do Maracanã,  duas paralisações já aconteceram. A primeira relacionada à explosão de um barril que armazenava produtos químicos  que feriu gravemente  um operário. Na ocasião, os dois mil trabalhadores entraram em greve denunciando os baixos salários e as condições precárias de trabalho, reivindicando  convênio médico e adicional de periculosidade. A segunda paralisação se deu por conta do descumprimento do acordo: “Os trabalhadores afirmaram que permaneciam sem plano de saúde, sem aumento no valor das cestas básicas e sem registro das horas extras no contracheque. Além disso, a insalubridade no canteiro de obras persistiu e, ao contrário do que previa o acordo anterior, houve uma queda de qualidade nas condições de trabalho”.
Trabalhadores informais
No que diz respeito à relação com os camelôs e trabalhadores informais – leia a matéria especial da Pública sobre as zonas de exclusão da FIFA – o documento aponta que a política de preparação da cidade é de militarização.
“Foram construídas duas UOPs (Unidade de Ordem Pública), quartéis da Guarda Municipal, na Central e no Maracanã. A Prefeitura Municipal aprovou na Câmara dos Vereadores uma legislação, em 2009, que proíbe qualquer camelô de trabalhar em um raio de 2 quilômetros dos estádios, hospedagem dos atletas e eventos relacionados”.
Esporte
O dossiê faz uma análise do que chama de “processo de elitização do futebol brasileiro”. Nesta tabela, mostra o aumento do valor dos ingressos e coloca que o Brasil segue sendo um país exportador de craques e que tem sido a maior fonte de renda dos clubes: “Exportam-se os jovens craques para serem refinados no exterior e compram-se os mesmos jogadores mais caros de volta, principalmente quando estes estão no fim de carreira”.
Ainda sobre o Maracanã, o dossiê  coloca que ele já ficou mais tempo parado do que em atividade  e que a reforma atual já está orçada em quase R$1 bilhão. “A previsão de abertura do estádio está para janeiro de 2013, quase 27 meses parado. Somando recursos de duas obras que aconteceram  lá, são quase R$1,5 bilhão de dinheiro público investido em um estádio que não recebeu um jogo sequer durante quatro dos últimos oito anos”.
Segurança
“O investimento público em segurança pelos megaeventos pode ser considerado um experimento no monitoramento de pessoas e lugares. No caso do Rio de Janeiro, a segurança pública relacionada aos megaeventos  está voltada para os interesses do mercado e terá o efeito de marginalizar ainda mais camadas sociais mais vulneráveis” denuncia o documento. E aponta que o investimento em UPPs representa o maior do Estado em segurança pública: “Só em 2014, o investimento será de R$ 720 milhões, prevendo um efetivo de 12 mil policiais. Não é por acaso que quase todas as primeiras 18 UPPs foram instaladas em favelas existentes nas regiões mais nobres da cidade, formando um ‘cinturão’ associado explicitamente às áreas das competições Olímpicas, aos sistemas de transporte que os entrelaçam e aos centros de maior poder aquisitivo”.
Orçamento e finanças
Em relação à Copa do Mundo, estão previstos pouco mais de R$ 4,1 bilhões entre financiamentos e investimentos, sendo mais de R$ 2,8 bilhões oriundos do governo federal. O dossiê lembra que o Banco Nacional para o Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, é a principal instituição de financiamento na capital. “ O Rio de Janeiro é a segunda cidade onde mais devem ser investidos recursos públicos, só sendo superada por São Paulo (onde estão previstos investimentos de R$ 5.145,15 bilhões)” e que a maior fatia deste bolo deve ir para mobilidade urbana, que representa 44,9% do total de investimentos previstos para a Copa e 59,6% para as Olimpíadas.
“Do restante dos investimentos para a Copa, 26,9% estão alocados na ampliação ou reforma da infraestrutura dos aeroportos e portos, e outros 21,1% na reforma do Maracanã”. Os investimentos previstos se concentram em áreas nobres da cidade, como a Barra da Tijuca e o Centro do Rio de Janeiro: “Percebe-se que o grande legado são os lucros apropriados por certos agentes econômicos que têm a cidade como o seu negócio”.
Outra denúncia importante diz respeito à transferência de recursos públicos para agentes privados na contratação de grandes obras ou em parcerias. “No caso do Maracanã, que está sendo reformado com recursos públicos, o governo do Estado do Rio de Janeiro anunciou a intenção de entregar sua gestão para um concessionário privado, já em fevereiro de 2013, na inauguração das obras para a Copa do Mundo em 2014. Conforme noticiou o jornal Brasil Econômico (27/10/2011), o bilionário Eike Batista, controlador do grupo EBX e oitavo homem mais rico do mundo -, admitiu interesse em participar do processo de privatização e da gestão do estádio Maracanã, como é popularmente conhecido o oficialmente estádio Mário Filho”.
Porto Maravilha
No caso do projeto revitalização da área portuária, o projeto Porto Maravilha , a parceria público-privada está ocorrendo por meio de uma operação urbana consorciada e da emissão de Certificados de Potencial Adicional de Construção-CEPAC. Pela lei aprovada, as empresas interessadas em construir na área portuária teriam de adquirir os certificados (em torno de seis milhões, cada um no valor mínimo de R$ 400), comercializados como títulos imobiliários negociados em leilões públicos supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários.
Ao todo, a operação urbana consorciada envolve uma área de quatro milhões de metros quadrados, que vai dos bairros da Gamboa, Saúde, São Cristóvão, Caju, Santo Cristo e Cidade Nova à Região da Leopoldina.
No entanto, no leilão realizado em 2010 para promover a primeira operação urbana consorciada do Rio (e a maior parceria público privada do Brasil, conforme o prefeito Eduardo Paes), a iniciativa privada não comprou nenhum título. O Fundo de Investimento Imobiliário Porto Maravilha, controlado pela Caixa Econômica Federal, comprou todos os CEPACS com recursos do FGTS.
Posteriormente, em 2011, seria estabelecida a parceria entre o Fundo de Investimento Imobiliário Porto Maravilha, gerido pela CAIXA, e a empresa Tishman Speyer, uma das maiores do mundo no ramo, para o desenvolvimento de um empreendimento imobiliário comercial na região do porto. O empreendimento prevê a construção de um conjunto de torres comerciais de alto padrão.
Participação popular
No que diz respeito à participação popular nas decisões e no acompanhamento dos projetos para os megaeventos, o documento esmiúça o organograma das entidades responsáveis e mostra que há pouco espaço para que a voz da população seja ouvida. Quando há a participação de alguma entidade civil, é apenas formal. É o caso do “Conselho de Legado”, uma entidade consultiva que reúne apenas quatro entidades: a Associação Comercial do Rio de Janeiro, Instituto dos Arquitetos do Brasil, Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário, ONG Rio Como Vamos. No total, entre entidades deliberativas, executivas e consultivas, são nove órgãos coordenando os megaeventos.
A ausência de diálogo e transparência com a população é evidente nos casos de remoção de habitações populares. Nas favelas da Vila Harmonia, Recreio II, Restinga, Sambódromo, Campinho e Metrô-mangueira os aviso de datas de remoção foram feitos horas antes da ação.
Também não há clareza na justificativa da remoção. As comunidades são situadas nas proximidades de intervenções que constam como “projetos olímpicos”, mas as explicações oficiais são mudadas constantemente. No vaso da Vila Autódromo, por exemplo, não se sabe se a remoção que ameaça acontecer é pela construção do Parque Olímpico, pela necessidade de ampliar corredores viários no local, por ocupar áreas de risco (segundo o dossiê, a favela é situada em lugar plano e não há registro de enchentes no local) ou por ser uma área de preservação ambiental.
Propostas do Comitê Popular
O Comitê Popular Rio defende que os direitos humanos básicos, como moradia, educação e saúde, “não podem ser comprometidos em nome dos megaeventos esportivos”. Eles acreditam que “as decisões sobre projetos e obras a serem realizados na cidade, envolvendo recursos públicos, ou mudanças das normas e marcos legais, sejam definidas considerando as necessidades e prioridades da população”. Ou seja, os “investimentos públicos na cidade devem promover o Direito à Cidade, e não sua elitização e mercantilização”. Também reivindicam  o “direito ao acesso e utilização dos espaços públicos pela população para a prática de atividades culturais e tradicionais como manifestações públicas e comércio popular”.
*Colaborou Jéssica Mota
http://www.portalpopulardacopa.org.br/index.php?option=com_k2&view=item&id=239:rj-dossi%C3%AA-in%C3%A9dito-mostra-mais-abusos-em-nome-da-copa

Discurso - Marcelo Freixo

O SR. MARCELO FREIXO – Sr. Presidente, Srs. Deputados, venho à tribuna para falar de um assunto sobre o qual tratei algumas vezes, mas agora há uma novidade: a recente privatização do Maracanã. O estádio é um dos maiores símbolos do Rio de Janeiro; representa um dos espaços mais democráticos; não há nenhum carioca que não tenha um grande momento no Maracanã em sua memória, seja de alegria ou tristeza.
Falei recentemente sobre o estudo de viabilidade técnica, econômica e jurídica para o complexo do Maracanã, elaborado pela IMX, do Sr. Eike Batista, e mostrei que, na realidade, não é um estudo, mas quase uma peça publicitária de interesses particulares da empresa pela privatização do complexo – não por acaso, a mesma empresa contratada para fazer o estudo de viabilidade venceu a licitação.
O tal estudo apresentado tem de tudo, menos um estudo. Diz ele que o Maracanã dava prejuízo, quando sabemos que não é verdade – que ele precisava de reformas é evidente, mas o estádio deu lucro a sua vida toda. Diz ainda que o Célio de Barros e o Julio Delamare precisavam ser demolidos porque estavam ociosos – o que também não é verdade; é só visitar o Centro Esportivo Célio de Barros e o Parque Aquático Júlio Delamare para ver que eles têm grande valia, grande utilidade, mas o interesse privado do Sr. Eike Batista é construir ali um estacionamento. Ou seja, sua empresa recebe dinheiro público para fazer o estudo e ainda apresenta um resultado que não é verdadeiro, porque não há pesquisa, não há estatística, não há comprovação, não há nada, e ainda pagamos por isso.
E mais: diz o estudo que os clubes vão se beneficiar porque vai haver uma mudança no perfil do torcedor – isso está escrito –, e o Maracanã será mais lucrativo. Ou seja, os ingressos vão ficar mais caros, o pobre não vai poder frequentar o estádio e, segundo o Sr. Eike Batista, isso vai ser bom para os clubes porque vão lucrar mais. Em outras palavras, a privatização do estádio diz claramente que a população pobre não poderá mais frequentá-lo – isso está escrito no documento pelo qual pagamos à IMX, empresa que vai administrar o Maracanã. É inaceitável!
Falei sobre isso na semana passada porque achei que esse seria o maior dos absurdos, mas eis que o canal de televisão ESPN Brasil fez um trabalho extraordinário pelos jornalistas Gabriela Moreira e Lúcio de Castro. Como é bom ter um meio de comunicação independente! Como faz diferença ter um canal que faça um debate honesto, que possa trazer a pauta verdadeira, que possa ouvir o lado silenciado por outros meios, que possa fazer o questionamento do interesse público. Como é importante contar com um veículo de comunicação que tenha independência mínima a fim de garantir o interesse público, é disso que estamos falando.
Nessa matéria recente do Maracanã feito pelo Lúcio de Castro e Gabriela Moreira, tem o Dossiê Maracanã que sugiro aos companheiros do Tribunal de Justiça que começam a chegar aqui nas galerias, sejam bem-vindos, entrem no site da ESPN para que possam assistir. E quem não viu, entrem no site Deputado, e assistam “Dossiê Maracanã”.
Há um elemento fundamental para que tenhamos uma ideia como o Governo do Estado opera, como o Governo do Estado funciona. Deputados que são da base do Governo, assistam.
Só para os senhores terem uma ideia, o Maracanã era um bem tombado. Então, para ele sofrer as alterações que sofreu, ele teria de ser destombado, o que teria de ser feito pela Presidência da República, que obviamente não o fez por não querer trazer para ela esse desgaste.
Quem autorizou a destruição das marquises, das arquibancadas, das cadeiras? Foi o superintendente do Iphan, Instituto de Patrimônio Nacional. O superintendente, naquele momento, era o Sr. Carlos Fernando de Souza Leão Andrade. Ele não é mais, foi substituído, mas à época do início da obra foi esse senhor quem autorizou o Governo do Estado, Deputado Geraldo Pudim, começar a fazer a obra do Maracanã. E assim que ele autorizou, começaram a quebrar o Maracanã inteiro, colocaram-no abaixo, e construíram um novo e moderno Maracanã.
Pois bem, o próprio conselho do Iphan está questionando o seu superintendente que já foi afastado. Mas sabem o que a ESPN descobriu e que está aqui neste dossiê? Que o superintendente do Iphan na verdade ele era funcionário do Governo Sérgio Cabral. O Sr. Carlos Fernando de Souza Leão Andrade era funcionário da Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos, a mesma Secretaria que fez a obra no Maracanã! Ele estava cedido ao Iphan. Fingindo independência, ele autorizou que a Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos, órgão para quem ele trabalhava, fizesse a obra do Maracanã!
E é assim que eles agem. Porque depois de destruído, o que falar? “Não, olha, bota de volta porque isso você não poderia fazer”. Não vai poder fazer isso. Então, eles contam com a impunidade, com o Poder Judiciário, que é aliado do Governo Estadual. E o que menos importa nesse momento é o cumprimento da lei.
É lamentável, é gravíssimo tal fato. Ele foi afastado e adivinha ele está hoje? Adivinha onde o Carlos Fernando de Souza Leão Andrade está hoje? No Governo do Estado. Ele foi para o Iphan, autorizou a obra no Maracanã, foi afastado pelo escândalo e voltou para o Governo do Estado, e tudo bem, Deputado! Tudo bem. Não tem problema nenhum. O problema é nosso, porque nós ficamos sem o Maracanã, um dos maiores símbolos da nossa cidade. Ele precisava de reforma? Precisava. Agora, o Maracanã não precisava passar pelo que passou ao preço que foi, para depois ser entregue à iniciativa privada.
E o mais importante, quem autorizou através do Iphan era alguém funcionário do Governo interessado nessa obra. Ou seja, é um jogo de compadres, é um jogo de aliados, um jogo de sócios. É inacreditável! Eles perderam completamente o mínimo de vergonha na cara. Não estão mais preocupados com isso. Perderam qualquer pingo de vergonha na cara.
O sujeito que liberou a obra do Maracanã é funcionário da Secretaria de Estado de Obras e Serviços Públicos. Quando entrevistado, disse: “Não há contradição; não há problemas. O meu parecer lá foi técnico”. Ora bolas, é pior que nos chamar de palhaços.
Então foi independente? Tenho aqui a ata, Sr. Presidente, da reunião do conselho posterior. A opinião dos conselheiros do Iphan não é a mesma do superintendente, alguns inclusive esculhambam com ele e dizem se sentir envergonhados. Como é que esse parecer foi técnico? Não, não foi técnico, Sr. Carlos Fernando, o seu parecer foi político, o seu parecer foi recheado de interesses econômicos, privados, contra o interesse público, sem os trâmites devidos do interesse público, é isso que está em jogo, é muito grave. Essa novela do Maracanã ainda vai render muito porque quando a população entender que perdeu um dos seus principais espaços de alegria vai ter repercussão nas ruas. A população ainda está dormente em relação a isso mas vai chegar um momento que vai entender. O que está em jogo é o mais absurdo interesse privado sobre o interesse público. Esse episódio do Maracanã que está longe de encerrar, a cada dia se descobre uma coisa nova, é vil, é lamentável. Nesse momento, honestamente, todo o Iphan está sob suspeita porque como é que entra para ser superintendente do Iphan alguém da Secretaria de Obras, cedido, que autoriza os interesses da Secretaria de Obras, do Governo estadual, do Sr. Eike Batista e companhia e da Odebrecht para fazer a obra do Maracanã e depois ele sai?
Sr. Presidente, o meu tempo esgotou, esses questionamentos certamente não esgotam o debate do Maracanã, eles apenas iniciam. Parabéns a ESPN, parabéns ao amigo Lúcio de Castro e a Gabriela Moreira pela independência e pela corajosa matéria de interesse público, coisa que faltou ao Iphan, coisa que faltou ao Governo estadual.
Obrigado.

http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/taqalerj.nsf/3620b663fe7fd44f832565370043e8be/e6eb12acdbc70b4883257b720071e669?OpenDocument

Durante apresentação de obras no Porto Maravilha, o prefeito Eduardo Paes também falou sobre o que ele viu das obras do Maracanã, que terá o seu primeiro jogo-teste no sábado (27), às 19h. Segundo o prefeito, as obras do lendário estádio representam uma “mudança de estágio civilizatório”:
“É uma mudança fantástica. Eu já conheci vários estádios pelo mundo e é impressionante no que se transformou o Maracanã. É mudança de estágio civilizatório mesmo. Pela primeira vez eu acho que o torcedor vai ser tratado com respeito”, disse o prefeito, que comandou o Maracanã pela Suderj por um ano e meio e diz que, antigamente, ir ao Maracanã “era uma aventura”:
“Você não sabia onde sentaria, muita gente acabava fazendo xixi nas colunas do Maracanã. Hoje não, você tem uma sinalização, com espaços qualificados, é um ganho enorme para a cidade. Esse é um legado importante para a cidade do Rio de Janeiro”, analisou o prefeito.
A nostalgia pelo velho Maracanã foi tratada com ironia pelo prefeito da cidade, que preferiu reforçar o aspecto de mudança com o novo estádio . “Eu também tenho nostalgia do cheiro de urina, da bagunça, da desordem do Maracanã, de tudo isso. Nostalgia existe, mas é uma mudança grande”, finalizou.